domingo, 16 de setembro de 2012

Educação Física em segundo plano

A educação física continua sendo uma disciplina obrigatória dentro da grade curricular de alunos a partir do 5º ano do ensino fundamental. Quer seja em escolas estaduais ou municipais, muitas deficiências implicam em resultados ruins no aprendizado de muitos alunos. A falta de espaço para a prática de esportes em algumas escolas e o comprometimento na estruturas de ginásios em outras instituições comprometem o ensino e a absorção dos conhecimentos por parte dos alunos que, na maior parte das vezes, são dispensados da parte prática.

De um lado, professores que acreditam que jogar vôlei e futebol supre a necessidade das práticas propostas para a disciplina de Educação Física. De outro, estudantes que só querem ir para a quadra bater bola e conversar com os amigos. Nesse cenário cada vez mais comum nas escolas, o tempo que deveria ser aproveitado para conhecer a cultura do corpo não cumpre seu papel e as crianças deixam de ter contato com conteúdos importantes. 

Em visita a algumas escolas públicas da capital potiguar, a TRIBUNA DO NORTE conversou com alunos, professores e diretores das instituições questionando quais são os principais problemas e de que forma estas escolas atuam para tentar driblar as dificuldades e marcar um gol no final de cada semestre. Na Escola Municipal Ferreira Itajubá, localizada no bairro das Quintas, a quadra poliesportiva totalmente coberta possibilita os alunos da escola a usufruírem tranquilamente da disciplina. Porém, muitas vezes não há professores suficientes para atender a toda a demanda.

"Os alunos a partir do 5º ano já têm o acompanhamento disciplinar de um profissional de educação física. Aqui na nossa escola, nós temos duas professoras. Porém, na educação infantil ainda é costume ser o pedagogo a ensinar as crianças a fazer algum tipo de esporte. Acaba sendo mais uma recreação, do que a prática de exercícios em si", explica Priscila Dantas, pedagoga e coordenadora da instituição.

Aliando o ensino da educação física ao projeto escolar, a pedagoga garante que o conceito dos esportes é de grande importância para que os alunos passem a desenvolver interações afetivas saudáveis, aprendam a ter limites e a respeitar regras. Equipamento também não é problema na escola municipal: bolas, cones, cordas, elásticos e redes fazem parte do acervo de materiais desportivos utilizados para o desenvolvimento das atividades.

Nas escolas estaduais visitadas pela reportagem, a situação não é tão animadora. Na Escola Estadual Francisco Ivo, na avenida 9, a quadra não tem previsão de receber a cobertura e ainda passa pela reforma do campo. "Na próxima semana está tudo pronto. Mas os alunos da manhã não podem usar o espaço, porque a disciplina de Educação Física está dentro da  grade curricular e logo de seguida eles precisam voltar para a sala: todos suados", explica Galeno Lima de Queiroz, diretor da escola.

De acordo a professora de educação física, Sandra Maria Freitas, de 46 anos, a prática em campo no período vespertino é possível devido ao sol não interferir na prática da atividade. "Com os alunos da manhã, além das aulas teóricas, fazemos as aulas práticas alternativas, como alongamentos, massagens e trabalhos corporais", explicou, alegando fazê-lo na sala de dança da escola. Segundo ela, as aulas precisam ser planejadas de maneira ampla para possibilitar a discussão a respeito do que é qualidade de vida e o que tem de ser feito para alcançá-la.

"A teoria acaba sendo o grande foco para esses alunos. A escola espera que essa cobertura chegue logo. Segundo a Secretaria Estadual de Educação, a garantia de concretização do trabalho do ginásio é para fevereiro do próximo ano", alegou o diretor Galeno.

Nas escolas estaduais, apenas 50 minutos duas vezes por semana são suficientes para ministrar a disciplina. Para o aluno do 3º ano do Ensino Médio, Roberto Lima, de 17 anos, as aulas práticas são estimulantes quando acontecem: raramente. "Acho importante mesmo que tenhamos esse tempo dedicado à Educação Física. É bom para a nossa saúde e para a nossa mente, porque tira todo o estresse e tensão do vestibular. Como diz o ditado: corpo são, mente sã", finalizou.

Alunos sofrem com falta de estrutura

A Escola Estadual Imperial Marinheiro, no bairro Nordeste, possui um terreno amplo de aproximadamente 300 m², onde não há teto, onde não há nada. Ninguém pode entrar no espaço onde há 39 anos, desde a fundação, a escola aguarda a construção do ginásio, visto que o matagal consome todo o espaço. A professora de educação física, Maria de Lourdes Bezerra, de 36 anos, tenta fazer milagres para conseguir ministrar as aulas práticas. 

"A teoria é bem simples. Ensino a fazer cálculos do índice de massa corporal, importância dos alimentos para o desenvolvimento do organismo. Mas na hora da prática, a coisa emperra", brincou a professora. Caminhando cerca de 100 metros até a quadra pública mais próxima da escola, pelo menos uma vez por mês os alunos realizam a recreação no horário em que deveria ser ministrada a disciplina de Educação Física. 

Maria de Lourdes garante ensinar os fundamentos do vôlei e do futebol para as crianças, mas que é difícil manter a ordem num espaço tão improvisado. "Outras vezes vamos ao campo ao lado da Compal, ali perto da avenida Felizardo Moura. Acontece que os moradores da comunidade do Mosquito usam o espaço e não podemos ficar muito tempo", explicou Lourdes, reforçando que sempre que sai da escola teme pela vida dos alunos.

Muitas bolas de vôlei e futsal, ainda empacotadas, ficam guardadas na sala da direção, inutilizadas. Para o pequeno David Darllan, de 11 anos, a falta de exercício físico na aula em que deveria haver essa prática torna a disciplina monótona e sem sentido. "Se eu fosse diretor dessa escola eu faria uma enorme quadra e uma piscina. Espaço para fazer nós temos. Falta é alguém para fazer", disse.

De acordo com o diretor da escola, Jorge Araújo, a Imperial Marinheiro não foi nem contemplada no Plano de Ações Articuladas a construção de quadras cobertas, da Secretaria de Educação do Estado.

Na Escola Estadual Walfredo Gurgel, localizada no bairro de Candelária, a situação é parecida. Mesmo com a existência de um enorme espaço para a realização de atividades físicas, os professores não conseguem obrigar todos os alunos a participar. A reportagem acompanhou uma das aulas, em que o professor alegou ser "aula livre", e observou que apenas alguns rapazes jogavam futebol. As meninas aguardavam sentadas, conversando ou até mesmo namorando.

Em contato com o coordenador de Desportos (Codesp) da Secretaria Estadual de Educação, Oswaldo Neto, os investimentos existem e devem ser aplicados para sanar todos esses problemas. "São anos seguidos onde várias escolas ficaram sem manutenção e sem a inserção de investimentos por parte do Governo Estadual. É muita coisa ao mesmo tempo para consertar", colocou o coordenador.

Para ele, a realidade é notória. "Falta sim espaços e estruturas físicas em muitas escolas. Mas é preciso obedecer ao planejamento para ter tudo sanado", disse. Cerca de 700 escolas fazem parte da jurisdição estadual, das quais 100 serão contempladas com novas quadras e reformas até o fim da gestão. Alguns entraves, como a dominialidade dos terrenos onde estão as escolas, estão entre os problemas para que a construção seja célere.

Com relação à escolas como a Imperial Marinheiro, a Codesp afirma: "Se a escola não tiver estrutura ou em condições adequadas, há parcerias com entidades privadas e municipais que permitem a prática e execução das atividades".

Especialista fala da importância da prática de esportes 
Sandra Maria de Freitas, de 46 anos, é professora de Educação Física há 25 anos. Nas escolas por onde passou, uma situação sempre a incomodou: os alunos não encaram a disciplina com seriedade. "Muitos pensam que a aula é só para descansar e se divertir", relata.

Idealizadora de um projeto alternativo, que treina uma equipe de futebol que já trouxe três prêmios dos Jogos Escolares do RN para a Escola Estadual Francisco Ivo, a professora afirma que perseverar e lutar contra as dificuldades é o grande segredo do trabalho em grupo.

"Já que não temos estrutura nem espaço adequado, vamos com nossas próprias forças procurar um local que haja e que ceda para nós", disse. Na escola ao lado, a Luiz Soares, a direção permitiu que os alunos pudessem usar aos sábados, por duas horas, o espaço da quadra da escola; tempo suficiente para treinar vencedores. 

Para ela, o ideal para ensinar alunos do 5º ao 9º ano, além de uma maior variedade de materiais desportivos, é a criação de um programa didático que aproxime o aluno da disciplina. "Eles precisam gostar do que estão fazendo. Como não há estrutura nem incentivo por parte do Estado, a situação só tende a piorar e a prática nas aulas de Educação Física no estado se tornam cada vez mais raras e menos produtivas", finalizou.


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